Será nos ombros?
Na garganta?
No peito?
Todos nós carregamos emoções no corpo, mesmo que nem sempre estejamos conscientes disso. Um aperto na garganta quando algo nos magoa, um peso nos ombros depois de um dia difícil, um coração acelerado diante de um medo ou de uma alegria intensa. O corpo fala – e muitas vezes grita – antes mesmo de a mente encontrar palavras.
Depois de um AVC, o que muda?
Após um AVC, muitas pessoas descrevem as emoções como jorros inesperados, quase como uma represa que se rompe sem aviso: lágrimas que surgem do nada, uma irritação súbita ou uma tristeza profunda sem motivo claro. Esta instabilidade emocional não é fraqueza – é uma resposta do cérebro em reorganização, que está a reaprender a regular sentimentos e expressões.
E há também a dificuldade em reconhecer e nomear o que se sente.
É comum ouvir:
- “Sinto vontade de chorar sem entender porquê.”
Quando o cérebro está a recuperar, as áreas responsáveis por interpretar emoções podem ficar temporariamente “desafinadas”, tornando mais difícil ligar sensação a significado.
Escutar o corpo é um ponto de partida
É aqui que o corpo se torna uma âncora. Mesmo quando a mente está confusa, o corpo dá sinais:
- Um aperto no estômago pode indicar ansiedade.
- Ombros tensos podem guardar preocupações.
- Um calor súbito pode acompanhar a raiva.
- Uma leveza no peito pode vir com a alegria.
E quando há perda ou alteração de sensibilidade?
O lado afetado pode transmitir sensações diferentes: peso, ardor, formigueiro… ou silêncio. Ainda assim, vale a pena treinar a atenção:
- Reconhece o que está presente: sente o peso do corpo apoiado, nota diferenças de temperatura.
- Observa como o ambiente influencia: uma sala fria pode intensificar a rigidez muscular; o calor pode dar sensação de fadiga. Estas variações também são formas de sentir.
- Usa o lado saudável como guia: sente primeiro num lado e, mentalmente, leva essa perceção ao outro.
Porquê praticar esta escuta?
Porque sentir é reconectar.
Ao observar o corpo, damos também nome às emoções. Isso ajuda a regulá-las, diminui a ansiedade e apoia a recuperação neurológica. Com o tempo, esta prática cria uma ponte entre corpo, mente e emoção – mesmo que a ponte seja reconstruída pedra a pedra.
Um convite simples
Hoje, experimenta:
- Senta-te confortavelmente.
- Fecha os olhos e respira fundo.
- Percorre mentalmente o teu corpo, parte a parte. Observa calor, frio, peso, leveza ou até ausência de sensação.
- Pergunta: “Que emoção acompanha isto?” Não precisas de ter resposta imediata. Só observa.
- Termina com uma respiração profunda, trazendo presença ao momento.
Porque mesmo quando as emoções vêm em jorro, ou o corpo parece estranho, ele continua a ser a tua casa. E merece ser escutado.